Sobre o AutorCláudio de Turim foi bispo de Turim de 817 a 839, data da sua morte. Esteve na corte de Luis da Aquitânia sendo comissionado por esse a escrever comentários sobre quase todos os livros da Bíblia para educação dos clérigos. A maioria desses comentários eram baseados na obra de Agostinho, por quem Cláudio tinha grande admiração. Cláudio tornou-se conhecido por suas pregações iconoclastas, em combate aos desvios da igreja medieval.

Eu recebi de algum transportador desagradável sua carta com o tratado anexado, cheios de balbuciação e tolice. No tratado você diz que está perturbado por causa dos rumores a meu respeito desde a Itália, na Gália, até as fronteiras da Espanha, insinuando que eu estou pregando alguma nova seita contrária à regra da fé católica. A acusação é falsa em todos os sentidos. Não me surpreende que aqueles membros do diabo, que proclamou que nossa Cabeça é um sedutor e demoníaco, digam tais coisas sobre mim. Pois não sou eu quem está ensinando uma seita, eu que mantenho a unidade da fé e proclamo a verdade. Quanto ao que esteve ao meu alcance, eu verifiquei, restringi, lutei e subjuguei seitas, cismas, superstições e heresias; enquanto eu tiver condições, não cessarei de depender plenamente da ajuda de Deus. Aconteceu que, depois que fui compelido a assumir o fardo do ministério pastoral, eu cheguei à cidade de Turin na Itália, enviado por Louis, aquele piedoso príncipe e filho da santa Igreja católica do Senhor. Encontrei todas as igrejas cheias de imagens sórdidas, que são anátemas e contrárias ao verdadeiro ensino. Como todos estavam honrando-as, me empenhei para destruí-las com minhas próprias mãos. Então todos abriram suas bocas para me amaldiçoar e, se não fosse a ajuda do Senhor, teriam me engolido vivo.

Aqueles contra os quais defendemos a Igreja dizem: “Não pensamos que há qualquer coisa inerentemente divina na imagem que adoramos. Adoramos com tal veneração somente em honra daquele a quem ela representa”. Respondemos que, se as imagens dos santos estiverem sendo veneradas por aqueles que renunciaram o culto ao diabo, não renunciaram o culto aos ídolos de fato, mas somente trocaram os nomes. Pois se você inscreve numa parede ou se você pinta imagens de Pedro e Paulo, de Júpiter e Saturno, ou mesmo de Mercúrio, estas imagens não são deuses, nem são apóstolos, não são nem mesmo homens, ainda que a palavra tenha sido alterada para este propósito. O erro, tanto antes quanto agora, sempre permanece o mesmo. Se fosse para adorar homens, seria melhor adorar os vivos e não os mortos. Nos vivos há a imagem de Deus, não a imagem de gado ou, o que é pior, de pedra ou madeira, que são desprovidas de vida, sentido ou razão. Com base nesse raciocínio, a conclusão deve ser que se as obras da mão de Deus não devem ser adoradas e honradas, muito menos as obras das mãos humanas devem ser adoradas ou cultuadas, nem mesmo devem receber honra por causa da semelhança com aquele que dizem representar. Se a imagem que alguém adora não é Deus, muito menos deve ser venerada pela honra dos santos, que não arrogam para si nem o mínimo da divina honra.

Por que você se humilha e se prostra diante de falsas imagens? Por que curva seu corpo aprisionado diante de estátuas tolas e pinturas terrenas? Deus te fez ereto. Enquanto os animais se prostram em direção a terra em baixo, você tem um status sublime e anda ereto, em direção ao céu e à face de Deus. Olhe para acima, vira seus olhos para o alto, busque a Deus e as coisas celestiais para que possa evitar aquilo que é de baixo. Erga seus corações à alturas celestiais. Por que você se entrega no colo da morte com aquela imagem sem vida que você honra? Por que se humilha na ruína do diabo? Preserve aquele status sublime com o qual nasceu. Preserve a maneira em que foi criado por Deus.

Aqueles que pertencem à falsa religião e a superstição dizem: “Com o propósito de relembrar do Salvador, nós honramos, veneramos e adoramos uma cruz pintada em Sua honra”. Nada lhes agrada sobre o Salvador exceto aquilo que agradava os ímpios, isto é, a desgraça de Sua paixão e a zombaria de Sua morte. Eles acreditam naquilo que homens ímpios, tanto judeus quanto pagãos que até duvidam de Sua ressurreição, também acreditam. Eles não aprenderam a pensar n’Ele de qualquer outra maneira se não crendo e mantendo-lhe em seus corações morto e sempre contorcido em Sua paixão. Não ouvem nem compreendem o que o apóstolo disse: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo”. (II Coríntios 5.16)

A resposta é que se desejam adorar toda madeira feita na forma de cruz porque Cristo foi pendurado na cruz, então o mesmo deve ser feito em memória de muitas outras coisas que Cristo fez na carne. Pois ele ficou pendurado na cruz por somente seis horas, mas ele esteve no ventre da virgem por nove meses lunares mais onze dias, o que é o mesmo que duzentos e setenta e seis dias solares, isto é, nove mais seis dias. Portanto, que meninas virgens sejam adoradas já que uma virgem deu à luz Cristo. Que manjedouras sejam adoradas já que Ele foi posto em uma logo depois de nascer. Que o linho velho seja adorado, pois, depois de nascer, ele foi enrolado no linho velho. Que os barcos sejam adorados, pois ele frequentemente navegava em barco, ensinava as multidões de um pequeno barco, deu ordem ao vento de um barco e foi ao lado direito de um barco que ele ordenou que fossem postas as redes quando a grande e profética pescaria aconteceu. Finalmente, que as lanças sejam adoradas, pois um dos soldados diante da cruz abriu seu lado com uma lança e daquele ferimento fluiu sangue e água, os sacramentos pela qual a Igreja é fundada. O que eu digo é piada e deve ser motivo para dar risadas e não para anotar. Mas somos forçados a propor tolice contra os tolos e a jogar pedras contra corações de pedra no lugar de lanças de palavras e opiniões. “Trazei-o à memória, ó prevaricadores”. (Isaías 46.8) Você se apartou da verdade, busca a vaidade e se tornou vão. De novo crucificou o Filho de Deus e o expõe ao vitupério. Assim, fizeste as almas dos humildes companheiros do diabo. Fazendo com que se alienassem por meio do impiedoso sacrilégio de estátuas, fizeste com que fossem rejeitados pelo Criador e fossem jogados a perpetua condenação.

Pois Deus ordena uma coisa e fazem outra. Deus mandou carregar a cruz, não adorá-la. Desejam adorá-la em vez de carrega-la tanto no sentido espiritual quanto corporal. Honrar a Deus desta forma significa se apartar d’Ele, pois ele disse “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me”. (Mateus 16.24) A menos que alguém renuncie-se a si mesmo, ele não se aproxima d’Aquele que está acima d’Ele, nem é capaz de compreender aquilo que está além dele, se ele não sabe como sacrificar.

Quando você diz que eu proíbo os homens de irem até Roma para fazer penitencia, fala falsamente. Eu nem aprovo nem desaprovo, pois eu sei que não atrapalha ninguém, mas também nem é útil.  Não é lucrativo, mas também não é um empecilho. Se você pensa que ir para Roma é buscar penitencia, então eu lhe pergunto por que você perdeu tantas almas em tão pouco tempo, almas que você reteve em seu mosteiro ou aqueles que, por causa da penitencia, você recebeu em seu mosteiro em vez de enviar para Roma e até fez com que fossem seus servos. Se as coisas são assim – se, como você diz, ir para Roma é buscar penitencia – o que você fará com o que foi dito pelo Senhor? “Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar”. (Mateus 18.6) Não há maior escândalo do que o de proibir um homem de seguir o caminho pelo qual ele poderá viajar até as alegrias eternas.

Você protesta contra mim dizendo que o senhor apostólico está irritado comigo e que você também está descontente. Você falou isso sobre Pascal, bispo da igreja de Roma, que desde então já deixou a presente vida. Um homem é chamado de apostólico quando é guardião do apóstolo ou aquele que exerce o ofício de um apóstolo. Certamente um homem não pode ser chamado de apóstolo se ele simplesmente se assenta no trono apostólico, mas somente aquele que dá continuidade a função. O Senhor falou daqueles que se assentam no lugar, mas não dá continuidade a função: “Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem”. (Mateus 23.2-3)

Tradução: Frank Brito
Fonte: Early Medieval Theology

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