“Mas digo isto: Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele que semeia em abundância, em abundância também ceifará”. (II Coríntios 9:6)

Estas palavras do Apóstolo Paulo a Igreja de Corinto estão entre os textos preferidos dos teólogos da prosperidade. E além de estar entre os preferidos, está também entre as mais distorcidos. O Pr. Silas Malafaia, por exemplo, ao comentar esse texto em uma de suas pregações que quem dá ofertas na igreja sem esperar retorno financeiro é simplesmente “trouxa”. Isso pode ser visto aqui:

Seu argumento é que a própria Bíblia garante que devemos esperar lucro de nossa contribução financeira e por isso aqueles que não esperam são trouxas. Segundo sua interpretação, quanto maior a contribução financeira, maior será o retorno financeiro. Este não é um ensino somente dele, mas tem sido cada vez mais defendido nas em muitas igrejas diferentes. Se tornou um dos instrumentos mais eficazes nas mãos de lobos exploradores que não pensam em outra coisa se não abastecer a própria conta bancária.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que cada verso da Bíblia não pode ser lido de forma isolada. Os versos não existem de forma isolada e por isso devem ser lidos dentro do contexto, tanto o contexto imediato do livro em que o verso aparece quanto o contexto maior da Bíblia como um tudo. A Bíblia não é uma caixa de promessa na qual aleatoriamente retiramos o que queremos dela para nosso benefício pessoal, mas é um documento uno e coeso que anuncia a vontade de Deus de forma una e coesa. Cada porção dela precisa ser lida no contexto de todo o resto.

No texto em questão, Paulo fala do “semear” e do “ceifar”. Quem semea muito, ceifa muito. Quem semea pouco, colhe pouco. Mas seu propósito não é falar em agricultura, mas ele somente usa a agricultura como meio de ilustrar verdades espirituais. Segundo os teólogos da prosperidade, o “semear” no texto é claramente contribuição financeira. Logo, o “ceifar” também se refere ao retorno financeiro que dependerá do tamanho da contribuição.

O primeiro erro dessa perspectiva é entender que Paulo esteja se referindo a contribuição financeira simplesmente. A Bíblia certamente fala da absoluta necessidade de contribuirmos financeiramente. Mas nunca de maneira isolada de um princípio maior:

“Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens…”(Mateus 6:2)

Aqui Jesus faz menção de homens que tinham a prática de dar muitas esmolas aos pobres nas sinagogas e nas ruas. Mas ele não reconhece seus atos como sendo atos de justiça, mas como hipocrisia. O motivo era que as motivações por trás das doações eram erradas. Sendo as motivações erradas, eram reconhecidas por Deus como sendo obras más e não como boas obras. O Apóstolo Paulo ensinou algo semelhante:

“E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres… e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria“. (I Coríntios 13.3)

Paulo, assim como Jesus, explicou que a esmola, ainda que seja de todos os nossos bens, se não for acompanhado da intenção correta, o amor, de de nada aproveita. Não é, portanto, reconhecido por Deus como sendo uma boa obra. No mesmo capítulo, Paulo dá algumas características do amor. Ele diz que o amor “não busca os seus próprios interesses“. (I Coríntios 13:5) Segundo o Pr. Silas Malafaia, devemos ofertar buscando nosso próprio interesse financeiro e quem não faz isso é um “trouxa”. Mas segundo a Bíblia, para a oferta ter algum valor diante de Deus, precisa ser acompanhada de amor e que uma das características do amor é não fazer as coisas pelos outros pensando em nosso próprio benefício, de maneira interesseira.

Sendo assim, quando Paulo fala em semear, ele não pode estar falando em contribuição financeira simplesmente sem qualquer consideração a qualquer outra coisa. O Apóstolo Paulo está falando em contribuição financeira sim, mas somente em contribuição financeira dentro do contexto maior do amor. Paulo está falando da contribuição financeira como demonstração de amor, como demonstração de sensibilidade e compaixão daqueles que eram menos favorecidos financeiramente. Paulo não está falando da contribuição no contexto bancário ou de qualquer maneira interesseira porque o amor “não busca os seus próprios interesses”. (I Coríntios 13:5)

Portanto, o que Paulo manda “semear”, antes de qualquer coisa é o amor. O dinheiro é semeado sim, mas somente como reflexo e fruto do amor, da compaixão por aqueles que estão passando por tribulações financeiras. O dinheiro por si só não é semente nenhuma. O dinheiro só se torna semente quando acompanhado da intenção do coração. Se for a intenção correta, a intenção do amor, será semente para a vida. Se for a acompanhado por segundo interesses, não será outra coisa se não a semente da morte.

Este é o sentido de “semear”. Agora veremos qual é o sentido de “ceifar”:

“E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra… Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para comer, também dará e multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça“. (II Coríntios 9:8-10)

Em nenhum momento do texto, Paulo se refere a “ceifa” como uma abundância de benefícios financeiros. Ele fala de abundância de benefício espiritual. Ele fala de abundância e aumento de graça e dos frutos de justiça. Como ele explica em outro lugar:

“Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade. a mansidão, o domínio próprio..” (Gálatasl 5:22-23)

“Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna“. (Gálatasl 6:7-8)

Em Atos dos Apóstolos, lemos a respeito de uma das igrejas mais generosas na história do Cristianismo:

“Da multidão dos que criam, era um só o coração e uma só a alma, e ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois não havia entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que vendiam e o depositavam aos pés dos apóstolos. E se repartia a qualquer um que tivesse necessidade”. (Atos 4:32-35)

Mas foi justamente eles que estavam passando por crises financeiras e por isso Paulo precisou pedir socorro a Igreja de Corinto:

“No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder, conforme tiver prosperado, guardando-o, para que se não façam coletas quando eu chegar. E, quando tiver chegado, mandarei os que por carta aprovardes para levar a vossa dádiva a Jerusalém“. (I Coríntios 16:2-3)

A Bíblia é repleta de santos fiéis passando por tribulações financeiras. Mas jamais tais santos são espiritualmente desamparados, mas certamente colhem o fruto da justiça. Abandonemos então a falsamente chamada “teologia da prosperidade”. A verdadeira prosperidade é aquela que é do céu:

“Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”.(Mat 6:19-21)

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