ARTIGO 5
A AUTORIDADE DA SAGRADA ESCRITURA

Recebemos [1] todos estes livros, e somente estes, como sagrados e canônicos, para regular, fundamentar e confirmar nossa fé [2]. Acreditamos, sem dúvida nenhuma, em tudo que eles contêm, não tanto porque a igreja aceita e reconhece estes livros como canônicos, mas principalmente porque o Espírito Santo testifica em nossos corações que eles vêm de Deus [3], como eles mesmos provam. Pois até os cegos podem sentir que as coisas, preditas neles, se cumprem [4].

1 – 1Ts 2:13.
2 – 2Tm 3:16,17.
3 – 1Co 12:3; 1Jo 4:6; 1Jo 5:6b.
4 – Dt 18:21,22; 1Rs 22:28; Jr 28:9; Ez 33:33.

Segue as palavras do reformador João Calvino sobre a autoridade da Escritura:

A AUTORIDADE DA BÍBLIA PROVÉM DE DEUS, NÃO DA IGREJA

Antes, porém, que se avance mais, é conveniente inserir certas considerações quanto à autoridade da Escritura, considerações que não só preparem os espíritos à sua reverência, mas também que dissipem toda dúvida. Ora, quando o que se propõe é a Palavra de Deus, é evidente que ninguém demonstrará petulância tão deplorável que ouse abolir a fé naquele que nela fala, salvo se, talvez, for destituído não só de bom senso, mas até mesmo da própria humanidade.

Como, porém, não se outorguem oráculos dos céus quotidianamente, e só subsistem as Escrituras, na qual aprouve ao Senhor consagrar sua verdade e perpétua lembrança, elas granjeiam entre os fiéis plena autoridade, não por outro direito senão aquele que emana do céu onde foram promulgadas, e, como sendo vivas, nelas se ouvem as próprias palavras de Deus.

Certamente que esta é matéria mui digna não só que seja tratada mais a fundo, mas que seja ponderada ainda mais precisamente. Que me perdoem, porém, os leitores, se atento mais para o que dita o propósito da obra encetada do que para o que requer a amplitude deste assunto.

Entre a maioria, entretanto, tem prevalecido o erro perniciosíssimo de que o valor que assiste à Escritura é apenas até onde os alvitres da Igreja concedem. Como se de fato a eterna e inviolável verdade de Deus se apoiasse no arbítrio dos homens! Pois, com grande escárnio do Espírito Santo, assim indagam: “Quem porventura nos pode fazer crer que essas coisas provieram de Deus?” Quem, por acaso, nos pode atestar que elas chegaram até nossos dias inteiras e intatas? Quem, afinal, nos pode persuadir de que este livro deve ser recebido reverentemente, excluindo um outro de seu número, a não ser que a Igreja prescrevesse a norma infalível de todas essas coisas?”

Depende, portanto, da determinação da Igreja, dizem, não só que se deve reverência à Escritura, como também que livros devam ser arrolados em seu cânon. E assim, homens sacrílegos, enquanto, sob o pretexto da Igreja, visam a implantar desenfreada tirania, não fazem caso dos absurdos em que se enredam a si próprios e aos demais com tal poder de fazer crer às pessoas simples que a Igreja tudo pode. Ora, se assim é, que acontecerá às pobres consciências que buscam sólida certeza da vida eterna, se todas e quaisquer promessas que existem a seu respeito subsistam embasadas unicamente no julgamento dos homens? Porventura, recebida uma resposta como essa, deixarão elas de vacilar e tremer? Em contrapartida, que ocasião damos aos infiéis de fazer troça e escárnio de nossa fé, e quantos a têm por suspeita caso se cresse que tem sua autoridade como prestada pelo favor dos homens!

A IGREJA ESTÁ FUNDAMENTADA NA BÍBLIA

Mas, palradores desse gênero se refutam sobejamente com apenas uma palavra do Apóstolo. Categoriza ele [Ef 2.20] que a Igreja se sustém no fundamento dos profetas e dos apóstolos. Se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir. Nem procede o que sofisticamente arrazoam, a saber, ainda que daqui derive a Igreja sua origem e começo, a não ser que se interponha o arbítrio da própria Igreja, permanece em dúvida quais coisas se devam atribuir aos profetas e aos apóstolos. Ora, se de início a Igreja Cristã foi fundada nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, onde quer que esta doutrina se encontre, sua aceitação, sem a qual a própria Igreja jamais teria existido, indubitavelmente precedeu à Igreja.

Portanto, mui fútil é a ficção de que o poder de julgar a Escritura está na alçada da Igreja, de sorte que se deva entender que do arbítrio desta, a Igreja, depende a certeza daquela, a Escritura. Conseqüentemente, enquanto a recebe e com sua aprovação a sela, a Igreja não a converte de duvidosa em autêntica, ou de outro modo seria controvertida; ao contrário, visto que a reconhece como sendo a verdade de seu Deus, por injunção da piedade, a venera sem qualquer restrição.

O TESTEMUNHO INTERIOR DO ESPÍRITO É SUPERIOR A TODA PROVA

É necessário reafirmar o que referi pouco atrás: a credibilidade da doutrina não se firma antes que ela nos persuada além de toda dúvida de que seu autor é Deus. Daí, a suprema prova da Escritura se estabelece reiteradamente da pessoa de Deus falando nela. Os profetas e os apóstolos não alardeiam, seja sua habilidade, sejam quaisquer elementos que granjeiam credibilidade aos que falam, nem insistem em razões, mas invocam o sagrado nome de Deus, mediante o qual todo mundo seja compelido à obediência. Cumpre, pois, agora ver como se poderá discernir, e não por uma opinião aparente, mas pela verdade, que o nome de Deus não seja usurpado temerariamente, nem com astúcia e engano. Ora, se almejamos o que seja melhor para as consciências, para que não venha a ser perpetuamente levadas em derredor pela dúvida instável, ou cedam à vacilação, para que nem ainda hesitem diante de quaisquer questiúnculas de somenos importância, deve-se buscar esta convicção para além das razões, dos juízos, ou das conjeturas humanas, ou, seja, do testemunho íntimo do Espírito.

É sem dúvida verdadeiro que, se quiséssemos continuar à base de argumentos, muitas coisas poderiam ser trazidas à consideração, aquelas que evidenciam facilmente que, se há algum Deus no céu, a lei, as profecias e o evangelho dimanaram dele. Ademais, ainda que se insurjam contra homens doutos e possuídos de profundíssimo discernimento e nesta disputa apliquem e ostentem todos os poderes da inteligência, contudo, a não ser que se endureçam despudorada e extremamente, esta confissão lhes será arrancada: que sinais de Deus se verão manifestados na Escritura, a falarem nela, dos quais se patenteia que a doutrina aí contida é de teor celestial. E, pouco adiante, veremos que todos os livros da Sagrada Escritura em muito excedem a quaisquer outros escritos. Logo, se volvermos para eles olhos puros e sentidos íntegros, a majestade de Deus prontamente nos será manifesta, à qual, subjugada nossa ousadia de contraditá-la, somos compelidos à obediência.

Entretanto, às avessas agem quantos porfiam por firmar a sólida credibilidade da Escritura através de discussões. De minha parte, já que não me destaco nem pela sublimada aptidão, nem pela eloqüência, entretanto, se houvesse de travar luta com os mais ardilosos desprezadores de Deus, um a um, os quais anseiam por mostrar-se solertes e refinados em sua depreciação da Escritura, confio que não me seria difícil calar-lhes as vozes estridentes. E, se fosse proveitoso o trabalho de refutar suas vãs cavilações, não haveria grande dificuldade em lhes pulverizar as jactanciosas expostulações que em surdina murmuram pelos cantos. Contudo, se alguém desvencilha a Sagrada Palavra de Deus das depreciações dos homens, nem ainda assim lhes será infundida, imediatamente no coração, a certeza que a piedade busca.

Uma vez que aos homens profanos a religião parece firmar-se apenas na opinião, para que estulta ou levianamente não creiam em algo, desejam e requerem que lhes seja provado pela razão que Moisés e os profetas falaram movidos por Deus. Não obstante respondo que o testemunho do Espírito é superior a toda razão. Ora, assim como só Deus é idônea testemunha de si mesmo em sua Palavra, também assim a Palavra não logrará fé nos corações humanos antes que seja neles selada pelo testemunho interior do Espírito. Portanto, é necessário que o mesmo Espírito que falou pela boca dos profetas penetre em nosso coração, para que nos persuada de que eles proclamaram fielmente o que lhes fora divinamente ordenado. E esta correlação é expressa com muita propriedade por Isaías, nestas palavras: “Meu Espírito que está em ti e as palavras que pus em tua boca e na de tua progênie jamais falharão” [Is 59.21]. Certos espíritos nobres se deixam apoquentar de que não há à mão comprovação clara, enquanto os ímpios vociferarem impunemente contra a Palavra de Deus. Na verdade, é como se o Espírito não fosse chamado, respectivamente, selo e penhor [1Co 1.22] para com isso confirmar a fé aos piedosos; porquanto, até que ele ilumine as mentes, elas sempre flutuam em meio a muitas incertezas!

A BÍBLIA É AUTENTICADA PELO ESPÍRITO

Portanto, que se tome isto por estabelecido: aqueles a quem o Espírito Santo interiormente ensinou aquiescem firmemente à Escritura, e esta é indubitavelmente autenticada por si mesma; nem é justo que ela se sujeite a demonstração e arrazoados, porquanto a certeza que ela merece de nossa parte a obtemos do testemunho do Espírito. Pois, ainda que, de sua própria majestade, evoque espontaneamente reverência para si, todavia por fim nos afeta seriamente, visto que nos foi selada no coração através do Espírito. Portanto, iluminados por seu poder, já não cremos que a Escritura procede de Deus por nosso próprio juízo, ou pelo juízo de outros; ao contrário, com a máxima certeza, não menos se contemplássemos nela a majestade do próprio Deus, concluímos, acima do juízo humano, que ela nos emanou diretamente da boca de Deus, através do ministério humano.

Não buscamos argumentos, nem evidências comprobatórias, sobre os quais se firme nosso critério. Pelo contrário, sujeitamos-lhe nosso juízo e entendimento como algo que está além do processo aleatório do juízo. Isto certamente o fazemos, não da maneira como às vezes alguns costumam sofregamente agarrar uma coisa desconhecida, a qual, tão logo examinada a fundo, acaba lhes desagradando, mas porque somos plenamente cônscios de que estamos diante da verdade inexpugnável. Nem tampouco à maneira como certos homens dignos de lástima costumam fazer à mente cativa de superstições; ao contrário, porque sentimos que aí medra e respira o poder indubitável da divina majestade, pelo qual somos atraídos e inflamados a obedecer, na verdade, cônscia e deliberadamente, contudo mais vívida e efetivamente que por força, seja da vontade, seja do saber humano.

E assim, com mui procedente razão Deus proclama, pela instrumentalidade de Isaías [43.10], que os profetas, juntamente com todo o povo, eram suas testemunhas, porque, instruídos por predições, sustentavam com plena certeza que, sem engano ou ambigüidade, Deus havia falado.

Portanto, aqui está uma convicção que não requer razões; um conhecimento ao qual assiste a mais sublimada razão; na verdade, no qual a mente descansa mais firme e constantemente que em quaisquer razões; enfim, um sentimento que não pode nascer senão de revelação celestial. Não estou falando de outra coisa senão do que em si experimenta cada um dos fiéis, exceto que as palavras ficam muito abaixo de uma justa explicação da matéria.

Deixo, por ora, de mencionar mais coisas, porquanto em outra parte se oferecerá lugar para tratar-se novamente deste assunto. Por ora saibamos apenas que, afinal, fé verdadeira é aquela que o Espírito de Deus sela em nosso coração. Simplesmente com esta razão, entretanto, o leitor despretensioso e dócil se contentará: Isaías [54.13] promete que discípulos de Deus haverão de ser todos filhos da Igreja renovada. Nisto, Deus julga dignos de privilégio singular Unicamente os eleitos, aos quais assim distingue da humanidade como um todo.

Com efeito, qual é o princípio da verdadeira doutrina senão a pronta disposição de ouvir a voz de Deus? Assim é que, pela boca de Moisés, Deus requer ser ouvido, segundo foi escrito: “Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu?, ou: Quem descerá ao abismo? Eis que a palavra está em tua boca” [Dt 30.12, 14; Sl 107.26]. Se Deus quis que fosse reservado a seus filhos este rico tesouro de conhecimento, não é de admirar nem é absurdo se no comum dos homens se manifesta tão grande ignorância e obtusidade. Chamo de comum dos homens até mesmo alguns vultos destacados, enquanto não forem inseridos no corpo da Igreja. Acrescenta que Isaías, advertindo que não só aos estranhos, mas até mesmo aos judeus que querem ser considerados os membros da família, o ensino profético haveria de ser desacreditado, adiciona ao mesmo tempo a causa: porque o braço de Deus não se revelará a todos [Is 53.1]. Portanto, sempre que a exigüidade do número dos que crêem nos conturbe, em contraste nos venha à mente que ninguém pode compreender os mistérios de Deus senão aqueles a quem foi dado entendê-los”. (João Calvino, Institutas da Religião Cristão, Livro I, Capítulo 7, “POR QUE É NECESSÁRIO QUE SE ESTABELEÇA O TESTEMUNHO EM PROL DA ESCRITURA PARA QUE SUA AUTORIDADE SEJA INDUBITÁVEL: EVIDENTEMENTE, DO ESPÍRITO”)

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