rushdoonyA Necessidade da Teologia Sistemática
Por R.J. Rushdoony

No último sábado, enquanto eu viajava por Los Angeles, eu escutava na rádio a transmissão de um evangelista do outro lado do país. Apesar de alegar que estava pregando a Palavra de Deus como um cristão que crê na Bíblia, ele não pregava uma fé que eu conseguia reconhecer como bíblica nem um Deus que eu ouço falar na Bíblia. Este homem garantiu aos seus ouvintes convertidos ou não que “Deus está sempre ao seu lado”. Ele também falou de Deus como nosso “papai” no céu, rico em recursos e ansioso pra nos ajudar se ao menos permitíssemos. Eu não consegui reconhecer o soberano Deus das Escrituras nem qualquer coisa que se assemelhasse a sua Palavra de autoridade, a Bíblia. O evangelista era um humanista que estava usando, ou tentando usar, Deus como o maior recurso possível a disposição do homem; o centro de seu modo de pensar era o homem e as necessidades do homem. Faltava nele qualquer teologia sistemática sobre Deus. No lugar disso, havia em sua mensagem traços de uma teologia do homem como o verdadeiro centro e deus de todas as coisas.

Em resumo, a teologia sistemática diz que Deus é Deus. Declara que Deus é soberano, onipotente, sapientíssimo, santíssimo, tem conhecimento de tudo o que ele ordena e decreta desde toda eternidade e por isso não há qualquer possibilidade ou potencialidade oculta para Deus porque ele é inteiramente autoconsciente e inteiramente auto consistente. Somente com um Deus assim a teologia sistemática é possível. Onde quer que a fé na soberania de Deus entre em declínio, a teologia sistemática é também obscurecida.

A palavra sistemática em teologia sistemática significa, entre outras coisas, que, primeiro, se trata de uma declaração compreensiva e unificada do que a Escritura como um todo ensina sobre Deus. A revelação de Deus na Escritura é reunida de maneira resumida e compreensiva e o resultado da teologia bíblica, a exegese e o significado da análise das Escrituras são organizados e estabelecidos.

Segundo, a palavra sistemática significa que o Deus totalmente soberano, que não muda (Ml 3.16), é realmente cognoscível. Ele é sempre o mesmo. Os homens mudam de caráter, crescem e regridem, mas Deus é sempre o mesmo, totalmente autoconsciente e absolutamente soberano. Somente sobre um Deus assim é possível ter uma palavra sistemática. É por isso que a teologia moderna não é capaz de produzir nenhuma sistemática. A posição de Karl Barth era a negação da possibilidade de sistemática. Sobre isso, ele escreveu:

Mas não é o “Todo Poderoso” que é Deus; não podemos compreender quem Deus é do ponto de vista de um conceito de poder supremo. O homem que clama pelo “Deus Todo Poderoso” erra terrivelmente sobre Deus. Pois “Todo-Poderoso” é mau assim como o “poder em si mesmo” é mau. “Todo Poderoso” significa Caos, Maldade, o Diabo. Não poderíamos melhor descrever e definir o Diabo do que imaginar esta ideia de habilidade livre, soberana… Deus e “poder em si mesmo” são mutuamente excludentes. Deus é a essência do possível; mas “poder em si mesmo” é a essência do impossível.

O Deus de Barth não é o Deus de quem a Escritura declara, “Eu sou o Todo-Poderoso” (Gn 17.1). O Deus de Barth é um conceito limitador, o produto da imaginação humana. Barth nos concede uma exposição sistemática de sua incredulidade; ele não pode nos dar uma teologia sistemática do Deus da Escritura.

De maneira parecida, Haroutunian defendia que a teologia sistemática era impossível porque uma doutrina de Deus assim “não faz justiça com as complexidades da vida humana”. O centro da teologia de Haroutunian é a vida humana: o Deus da Escritura não pode de qualquer maneira ou em qualquer sentido interferir na soberania do homem autônomo. Portanto, pra ele a teologia sistemática é uma ilusão porque o Deus da teologia sistemática é, por definição, excluído de qualquer consideração.

Terceiro, sistemática significa que a pressuposição da teologia não é a mente do homem autônomo, mas o Deus soberano da Escritura. A teologia sistemática, como a apologética, não busca provar a Deus e sua existência; em vez disso, pressupõe o Deus triúno como o único fundamento e meio de raciocinar e provar. Como Van Til demonstrou tão bem, “Todas as disciplinas precisam pressupor Deus, mas ao mesmo tempo a pressuposição é a melhor prova”. Sobre qualquer outra pressuposição, se aplicado logicamente, nenhuma prova é sequer possível, porque toda a realidade é reduzida à factualidade bruta, como Van Til demonstrou. Em vez de factualidade brutal e sem sentido, todo o universo nos dá somente a factualidade criada por Deus e por isso a pressuposição necessária para todo pensamento é o Deus triúno.

Quarto, como Van Til já enfatizou, a teologia sistemática nega o conceito de neutralidade. Não existem fatos neutros, pensamentos neutros, homem ou razão neutra. Todos os homens, fatos e pensamentos ou começam com o Deus triúno e soberano, ou começam com rebelião contra ele. A teologia sistemática afirma este Deus; a negação da teologia sistemática é a negação de Deus.

Quinto, a teologia sistemática é necessária para os homens pensarem de maneira inteligente e lógica. Sem o conceito de teologia sistemática e do Deus que ela apresenta, não podemos acreditar em um universo racional e compreensível, nem em uma ordem significante nele. A razão e a lógica do homem não regenerado têm como pano de fundo o caos e um vácuo insignificante, de maneira que são essencialmente mais do que irracional: são absurdas. A teologia sistemática não somente torna o raciocínio racional, mas declara que há uma conexão necessária e significativa entre todos os fatos porque todos os fatos são criações do Deus soberano e onipotente e, assim, revelações de Seu propósito e ordem. A ideia de pregar todo o conselho de Deus somente é uma possibilidade se a teologia sistemática for uma realidade. De outra maneira, não há conexão real e necessária ou unidade na Palavra de Deus. Em vez disso, haveria um plano e uma palavra mutáveis e em desenvolvimento sob diferentes dispensações. Haveria então uma palavra fragmentada, não todo conselho que é uma unidade necessária e com autoridade.

Assim, sem a teologia sistemática não há Palavra de Deus, e, na verdade, nenhum Deus como Sua revelação na Escritura apresenta. O que temos é outro deus com uma palavra ocasional formada por insights momentâneos, e de poderes superiores ao homem, mas nenhum Deus absoluto, todo-poderoso, e soberano de quem cada palavra é infalível, e cuja revelação manifesta o único sistema de verdade possível. Este Deus vivo declara “Eu sou Deus, e não há outro” (Is 46.9). Não existe outro Deus, nenhuma outra verdade, nenhuma outra possibilidade, sistema ou significado fora dele. Ele é o Senhor Deus.

Tradução: Frank Brito
Fonte: Systematic Theology (Volume I)

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