Nero“Então vi subir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças nomes de blasfêmia”. (Apocalipse 13.1)

A besta é um dos principais personagens do Apocalipse. Identificá-la é essencial para compreender o tempo em que se cumpriram as demais profecias. Na realidade, não há uma única besta, mas duas.  A primeira é a que sobe do mar e a segunda é a que sobe da terra. Todavia, a que sobe da terra não é mais chamada de besta no resto do livro e passa a ser chamada de “falso profeta” enquanto a que sobe do mar é chamada simplesmente de “a besta”. Portanto, quando nos referimos a besta, normalmente estamos falando especificamente da primeira besta, a que sobe do mar.

A origem do simbolismo com bestas que encontramos no Apocalipse está no livro de Daniel. O termo traduzido por “animal” na visão de Daniel é a palavra חיוא cheyva – no hebraico. Refere-se a animais ferozes. Também poderia ser traduzida como besta. Esse é o caso da Bíblia King James que traduz a palavra como beast. A palavra grega θηρίον – therion – traduzida como besta no Apocalipse tem o mesmo sentido. Cada besta na visão de Daniel representa um reino:

“No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho e visões ante seus olhos, quando estava no seu leito; escreveu logo o sonho e relatou a suma de todas as coisas. Falou Daniel e disse: Eu estava olhando, durante a minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar Grande. Quatro animais, grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar”. (Dn 7.1-3)

 As quatro bestas de Daniel se referem à sequência dos impérios que tiveram domínio sobre Israel desde Babilônia até o Império Romano no tempo de Jesus Cristo. Daniel também teve outras visões (cf. Dn 2, 8) que se referiam aos mesmos reinos. As quatro bestas são equivalentes às quatro partes da estátua do sonho de Nabucodonosor (Dn 2). Além disso, o bode e o carneiro (Dn 8.20-21) são equivalentes ao segundo e terceiro reino do sonho da estátua e das bestas. A identidade de cada império é evidente quando analisamos as três visões paralelamente: Babilônia, Medo-Persa, Grécia e Roma.

O significado da quarta besta da visão de Daniel é equivalente a besta que João vê no Apocalipse: “E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder e o seu trono e grande autoridade”. (Ap 13.2) Assim como a quarta besta do livro de Daniel, a besta do Apocalipse não é associada a nenhum animal específico. No Apocalipse, ela todas as características das três primeiras bestas de Daniel.

O significado das sete cabeças da besta é explicado pelo o anjo no capítulo 17. Segundo o anjo “as sete cabeças são sete monte” (Ap 17.9). Isso aponta para Roma. A cidade de Roma era e ainda é mundialmente conhecida como a cidade dos sete colinas, pois é cercada por sete montes. Os montes são: Capitolinus, Palatinus, Aventinus, Esquilinus, Coelius, Viminalis e Quirinalis. Além disso, o anjo revela que “são também sete reis: cinco já caíram; um existe; e quando vier, deve permanecer pouco tempo”. (Ap 17.10). Isso deixa claro que a besta necessariamente precisa ser interpretada como significando um reino que contemporâneo a João. Isso deixa claro que a besta não pode significar algo contemporâneo ou futuro a nós do século XXI. A explicação do anjo deixa claro que a besta estava em plena atividade já no tempo de João. Para interpretar a besta como significando algo contemporâneo ou futuro a nós do século XXI é preciso ignorar o que foi explicado claramente pelo anjo. As sete cabeças são os sete primeiros imperadores romanos desde que o Império foi estabelecido: Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Claudio, Nero e Galba. Isso significa que a besta era o Império Romano. E quem estava no poder quando o Apocalipse foi escrito era Nero.

Nero foi o primeiro imperador a iniciar uma perseguição oficial e sistemática contra os cristãos por todo o Império. O historiador romano Tácito escreveu sobre essa perseguição. Em uma de suas obras, ele descreve o famoso incêndio de Roma, provocado por Nero. Para se livrar da culpa pelo incêndio e conseguir justificativas para a perseguição, Nero culpou os cristãos.

Isto explica o Apocalipse fala tanto em perseguições e em mártires.  Já na abertura do livro, o Apóstolo João diz: “Eu, João, irmão vosso e companheiro convosco na aflição, no reino, e na perseverança em Jesus, estava na ilha chamada Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”. (Ap 1.9) A primeira perseguição oficial por parte do Império Romano foi iniciada por Nero e durou quarenta e dois meses – de Novembro de 64 à Junho de 68 – quando ele se matou com uma espada no pescoço: “Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias; e deu-se-lhe autoridade para atuar por quarenta e dois meses. E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu. E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação”. (Ap 13.5-7) Foi durante as perseguições de Nero que Paulo e Pedro foram mortos. No mundo antigo Nero era conhecido pelo seu prazer por morte, tortura e perversidade sexual – homossexualidade, incesto, pedofilia e até zoofilia. Assassinou sua própria mãe, irmão, esposa e tia. No auge de sua insanidade Nero castrou um menino chamado Sporus, passou a tratá-lo como uma mulher e até celebrou uma cerimônia de casamento com ele, vestido de imperatriz. Permaneceram vivendo como casados até a morte.

João ainda revela algo muito importância para ajudar na identificação da besta: “Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis”. (Ap 13.18) Muita especulação sempre existiu e ainda existe em torno desse número. Mas se queremos ser fiéis ao texto bíblico, não podemos nos esquecer de que o Apocalipse foi escrito de forma a ser compreendido pelos contemporâneos de João, pelas “sete igrejas que estão na Ásia” (Ap 1.4). Quando João mandou seus destinatários calcular o número da besta, isso realmente era possível a eles. Não seria possível somente para a Igreja mais de 2000 anos depois, mas era algo que deveria ser feito pelos primeiro leitores do Apocalipse. Se a besta já estava em plena atividade no primeiro século, então também era possível calcular o número da besta já no primeiro século para que a besta fosse identificada.

É importante lembrar que em todos os idiomas antigos, as letras não eram usadas somente como símbolos fonéticos, mas tinham também um valor numérico. No português usamos os numerais romanos da mesma forma até hoje. A letra “V” por exemplo, se refere ao número 5. A vogal “I” se refere ao número 1. No grego e no hebraico, os valores das letras seguiam a ordem do alfabeto. As primeiras nove letras representavam os valores de 1-9. A décima até a décima-nona letra representavam as dezenas (20,30,40,50, etc.). O resto das letras representavam valores de centenas (100,200, 300, etc.). Devido a esse uso duplo do alfabeto, era comum formar enigmas numéricos contendo nomes. Os gregos chamavam de “isopsephia”. Os judeus chamavam de “gimatriya”. Os eruditos modernos chamam esse fenômeno de “criptograma”.  Portanto, os primeiros leitores do Apocalipse já estariam familiarizados com essa prática. Segue abaixo a equivalência numérica das letras:

Dec.

Heb.

Dec.

Heb.

Dec.

Heb.

1

א

7

ז

40

מ

2

ב

8

ח

50

נ

3

ג

9

ט

60

ס

4

ד

10

י

70

ע

5

ה

20

כ

80

פ

6

ו

30

ל

90

צ

Dec.

Heb.

 100

ק

200

ר

300

ש

400

ת

Em hebraico o nome Nero César era קסר נרונ – pronunciado como Neron Kaiser. Nero era quem estava no poder quando o Apocalipse foi escrito – a sexta cabeça da besta. E quando calculamos o número de seu nome, chegamos ao valor exato de seiscentos e sessenta e seis:

ר

ס

ק

נ

ו

ר

נ

Total

200

60

100

50

6

200

50

666

A sétima cabeça da besta foi Galba, o imperador que sucedeu Nero. Segundo o anjo, ele permaneceria por pouco tempo no poder: “… o outro ainda não é vindo; e quando vier, deve permanecer pouco tempo”. (Ap 17.10) Isso se cumpriu com exatidão na pessoa de Galba. Ele foi Imperador por somente sete meses – do dia 8 de Junho de 68 até o dia 15 de Janeiro de 69.

Anúncios