Jesus Ensinou Que a Era Cristã Precisa Terminar? (Parte II)

rainbowJESUS ENSINOU QUE A ERA CRISTÃ PRECISA TERMINAR? (Parte II)
Por Frank Brito

Parte I – Parte III

Na última postagem deste blog, fiz comentários sobre postagem do Rev. Leandro Lima em que ele opina sobre a última decisão da Suprema Corte dos EUA a favor do “casamento gay”. Eu havia prometido que, em outra postagem, demonstraria que, diferente do que ele defende, a Bíblia ensina que a era cristã precisa crescer, se expandir e avançar e que se ela não avançar, Jesus não voltará. Mas como, desde então, ele fez alguns comentários sobre a minha postagem em seu perfil no Facebook, antes de avançar no assunto, irei responder aos seus comentários.

Em minha postagem, demonstrei que o Rev. Leandro Lima erradamente interpreta a comparação de Cristo com Sodoma e Gomorra em Lucas 17 quando argumenta que, em Sua comparação, Cristo estava se referindo ao movimento gay dos dias de hoje. Cristo, ao fazer essa comparação, não menciona, em momento algum, o pecado da homossexualidade. Mas se Cristo não refere-se ao problema da homossexualidade, por que o Rev. Leandro Lima acredita que ele estava se referindo ao movimento gay? Porque ele acredita que o mero fato de Cristo se referir ao povo de Sodoma automaticamente remete ao pecado homossexualidade, sem a necessidade que Ele mencione a homossexualidade explicitamente. Entre outras coisas, minha objeção é que a Bíblia nunca identifica a homossexualidade como sendo o único ou principal pecado de Sodoma e, em diversos lugares, enfatiza outros pecados como tendo contribuído para a destruição de Sodoma, além da imoralidade sexual. Além disso, em diversas partes das Escrituras, há comparações sendo feitas com Sodoma sem que a comparação remeta ao pecado da homossexualidade. E se há estas comparações sendo feitas sem que a comparação remeta ao pecado da homossexualidade, não temos qualquer base para concluir que a comparação feita por Cristo tivesse qualquer relação com a homossexualidade. Sendo assim, para demonstrar que Cristo estava se referindo ao movimento gay, o Rev. Leandro Lima precisa apresentar maiores evidências. Pensar que o mero fato de Cristo se referir ao povo de Sodoma automaticamente remete ao pecado da homossexualidade não é baseado em exegese bíblica, mas na concepção popular que as pessoas tem de Sodoma. Em sua resposta à minha postagem, ele escreveu:

“Finalmente, tentar desqualificar a comparação do pecado de Sodoma e Gomorra, ou das pessoas da época do dilúvio, insistindo na ideia de que Jesus estava “apenas dizendo que ia ser imprevisível”, mas que ele não estava fazendo qualquer menção às deturpações matrimoniais dos dois períodos, é cometer dois erros crassos. Primeiro, por mostrar total desconhecimento da época de Jesus e do que pensavam os judeus no período. Jesus estava reagindo justamente ao que eles pensavam. E no judaísmo do primeiro século estava claramente estabelecido que a causa tanto do dilúvio quanto da destruição de Sodoma e Gomorra era “deturpação sexual”. Os textos de 2Pedro 2.4-6 e Judas 6-7 claramente estabelecem isso, inclusive ligando os dois eventos por causa do termo “prostituição” (porneia)”.

Aqui é importante entender que a necessidade do Rev. Leandro Lima de atribuir a destruição de Sodoma e Gomorra exclusivamente à “deturpação sexual” está no fato de que, se isso não for estabelecido, ele não terá mais qualquer base para dizer que o mero fato de Cristo se referir ao povo de Sodoma automaticamente remete ao pecado homossexualidade. Mas, como eu disse acima e demonstrei em minha primeira postagem, em outras partes das Escrituras, há comparações sendo feitas com Sodoma sem que a comparação remeta ao pecado da homossexualidade. Por que na comparação de Cristo, essa conexão necessariamente tem que existir?

Sobre isso, o primeiro argumento do Rev. Leandro Lima gira em torno de meu suposto “total desconhecimento da época de Jesus e do que pensavam os judeus no período”. Mas vamos consultar o que escreveu Flávio Josefo, um judeu que é reconhecido um dos mais importantes historiadores do primeiro século. Uma das obras mais importantes de Flávio Josefo foi Antiguidades Judaicas. Nesta obra, ele narra a história do mundo e do povo de Israel desde a criação de Adão e Eva até a primeira Guerra Judaico-Romana no primeiro século. Ainda no primeiro capítulo, ele escreveu sobre a destruição de Sodoma:

“Os povos de Sodoma, cheios de orgulho por sua abun­dância e grandes riquezas, esqueceram-se dos benefícios que haviam recebido de Deus e não foram menos ímpios para com Ele do que ultrajosos para com os homens. Odiavam os estrangeiros, e chafurdaram-se em prazeres inomináveis. Deus, irritado pelos seus crimes, resolveu castigá-los: destruir a sua cidade de tal modo que não restasse o menor vestígio dela, tornando o país tão estéril que jamais pudesse produzir fruto ou planta alguma”. (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, 1:11:32)

Flávio Josefo restringe o juízo de Deus contra Sodoma ao problema da imoralidade sexual? Flávio Josefo fala do orgulho por conta da abundância de riquezas, da impiedade contra Deus e contra os homens, do ódio por estrangeiros (onde entra a questão da “hospitalidade” em Hebreus 13:2 que eu havia mencionado) e também diz “chafurdaram-se em prazeres inomináveis”, o que provavelmente se refere ao problema da imoralidade sexual. Ele diz que eles foram julgados por todos esses crimes, não somente o da imoralidade sexual e nem restringe isso ao problema da homossexualidade. Então aqui vemos que a interpretação de Flávio Josefo sobre a destruição de Sodoma é como a que dei em minha primeira postagem. Eu havia escrito:

Sem dúvidas, a imoralidade sexual está incluída nas ‘abominações diante de mim’. Mas a ênfase aqui é outra: Sodoma era uma civilização rica e soberba, que exercia tirania contra os fracos, pobres e necessitados (…) Na carta aos Hebreus está escrito: ‘Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos‘. (Hebreus 13:2) A palavra traduzida como “hospitalidade” é φιλονεξία (philonexia) e significa literalmente ‘amor aos estrangeiros‘. A Bíblia King James, em inglês, transmite a ideia de forma mais literal: ‘Be not forgetful to entertain strangers: for thereby some have entertained angels unawares’. (Hebrew 13:2) Claramente, o texto está referindo-se ao que lemos em Gênesis. Tanto Abraão (Gn 18) quanto Ló hospedaram anjos (Gn 19:1-3), como estrangeiros. Os anjos que Ló hospedou foram os mesmo que Abraão já havia hospedado (cf. Gn 18:16; 19:1-3). Apesar de Ló ter observado a virtude da hospitalidade que Hebreus 13:2 recomenda, os moradores de Sodoma não agiram da mesma maneira. Os sodomitas cercaram a casa de Ló, onde os anjos estavam, pensando que eram homens, com o objetivo de violentá-los sexualmente”.

Quem parece, então, estar desinformado sobre o que pensavam os judeus do primeiro século é o Rev. Leandro Lima. Outra obra que poderíamos citar é o livro apócrifo, “Sabedoria de Salomão”. Como Protestante não reconheço essa obra como sendo divinamente inspirada, mas ela se encontra no cânon da Igreja Romana e pode ser lida na Bíblia deles. Apesar de não ter sido escrito por Salomão, como a própria Igreja Romana reconhece, o livro foi escrito no período intertestamentário, provavelmente entre os séculos II e I antes de Cristo. Entre os capítulos 11 e 19 deste livro, o autor reflete sobre o Êxodo, fazendo comparações entre Israel e o Egito e falando da exploração que os israelitas sofreram no Egito. No capítulo 19, ele chega a comparar os egípcios com Sodoma. A base da comparação que ele faz é que ambos oprimiram estrangeiros (Sabedoria 19:14). Ele em nenhum momento menciona o problema da imoralidade sexual. Mas em vez de dependermos de tradições judaicas, vamos considerar o que encontramos na própria Palavra de Deus:

“Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o SENHOR tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai, nação pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás. Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo. A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo; a vossa terra os estranhos a devoram em vossa presença; e está como devastada, numa subversão de estranhos. E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada. Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à Lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra“. (Isaías 1:2-10)

Aqui Deus está falando com o povo de Israel. Mas Ele os compara com Sodoma e Gomorra: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à Lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra“. Em seguida, Ele dá detalhes sobre os principais pecados de Israel:

“De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra. Mas se recusardes, e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse. Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas. A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água. Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva. Portanto diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Forte de Israel: Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos. E voltarei contra ti a minha mão, e purificarei inteiramente as tuas escórias; e tirar-te-ei toda a impureza. E te restituirei os teus juízes, como foram dantes; e os teus conselheiros, como antigamente; e então te chamarão cidade de justiça, cidade fiel”. (Isaías 1:11-26)

Então aqui vemos Deus comparar Israel com Sodoma e Gomorra. Mas quando Ele lista os pecados de Israel, logo em seguida, em nenhum momento Ele menciona a promiscuidade sexual. Isso não significa que não havia promiscuidade sexual lá. Mas, sem dúvidas, significa que a ênfase da comparação não é essa. Que tipo de pecado é enfatizado aqui? Pecados parecidos com o que encontramos em Ezequiel 16:

“Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado“. (Ezequiel 16:49)

No livro do profeta Jeremias, Deus também compara Israel com Sodoma:

“Nos profetas de Samaria bem vi loucura; profetizavam da parte de Baal, e faziam errar o meu povo Israel. Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra“. (Jeremias 23:13-14)

Aqui Deus diz que os judeus tinham “tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra”. Qual o motivo da comparação? Novamente, não há menção ao pecado da homossexualidade: “cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores“. Neste caso, há sim o problema da imoralidade sexual, “cometem adultérios”, mas, ainda assim, este não é o único tipo de pecado e não é a homossexualidade. Quando diz, “fortalecem as mãos dos malfeitores“, É uma linguagem comum na Bíblia e é exatamente a mesma linguagem que encontramos em Ezequiel 16 sobre Sodoma: “…mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado“. Em vez de fortalecer a mão do pobre e necessitado para que tivessem justiça, eles fortaleciam as mãos dos malfeitores para que oprimissem os necessitados.

Sendo assim, é um fato incontestável que a Bíblia associa diversos pecados à Sodoma e Gomorra, não só a imoralidade sexual. Com isso concorda Flávio Josefo, judeu do primeiro século. Além disso, é um fato incontestável que em todos os casos que, no Antigo Testamento, Deus compara Israel com Sodoma e Gomorra, os pecados enfatizados no contexto nunca são a homossexualidade. Sendo assim, não temos qualquer base para concluir que quando Cristo fez uma comparação com Sodoma e Gomorra, o propósito de Sua comparação era enfatizar o pecado da homossexualidade. Essa associação automática só existiria se a homossexualidade fosse o único pecado enfatizado na Bíblia sobre Sodoma, o que não é de forma alguma verdade.

O Rev. Leandro Lima diz:

Os textos de 2Pedro 2.4-6 e Judas 6-7 claramente estabelecem isso, inclusive ligando os dois eventos por causa do termo “prostituição” (porneia)”.

Na verdade, na passagem de II Pedro não encontra-se o termo grego πορνεία (porneia). Em II Pedro lemos:

“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo; E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; E condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente; E livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (Porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, vendo e ouvindo sobre as suas obras injustas); Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados; Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades; Enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor. Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção, Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco”. (II Pedro 2:1-13)

Aqui Pedro fala de diversos pecados, incluindo o pecado dos anjos réprobos (v. 4). Quando ele menciona Sodoma e Gomorra, dos versos 6 ao 8, ele não restringe o motivo da destruição destes povos à imoralidade sexual. No verso 7, ele diz que Ló estava “enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis”. A palavra “dissoluta” é ἀσέλγεια (aselgeia) e este termo realmente é usada no Novo Testamento para se referir à imoralidade sexual. Mas não se refere somente à homossexualidade. Em Jeremias 23:13-14, por exemplo, quando Deus compara Israel com Sodoma, ele menciona adultérios. Adultérios está incluído no significado de “dissoluta” (aselgeia), não se restringe à homossexualidade. Portanto, não há qualquer ênfase explícita neste texto ao problema da homossexualidade especificamente, só ao fato de que a imoralidade sexual de forma geral deixava Ló enfadado. Além disso, o verso 18 fala também de suas “obras injustas” (ἀνόμοις ἔργοις – “anomois ergois”), que inclui qualquer prática pecaminosa.

Na passagem de Judas, está escrito:

E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”. (Judas 6-7, Almeida Revista e Atualizada)

O que é traduzido aqui como “havendo-se entregado à prostituição” é o termo ἐκπορνεύω (ekporneuō), que é de fato uma variação de πορνεία (porneia), que se refere à imoralidade sexual. Todavia, é importante observar o que vem logo em seguida: “seguindo após outra carne”. O que é traduzido aqui por “outra carne” é σαρκὸς ἑτέρας (sarkos heteras). “Heteras” tem o sentido de “diferente”. “Sarkos” poderia também ser traduzido como “subtância” ou “matéria”. O mais provável é que o texto esteja se referindo à tentativa dos sodomitas de estuprarem os anjos, que eram seres de “outra carne” (sarkos heteras). Neste caso, este verso estaria se referindo somente a este evento específico, não a qualquer outro pecado de Sodoma, pois em nenhuma outra ocasião seria possível eles tentarem violentar anjos. Não há nada sobre o termo “outra carne” (sarkos heteras) que faça com que o problema esteja restrito à homossexualidade.

De qualquer maneira, não há dúvidas de que na narrativa de Gênesis existe, entre os sodomitas, o desejo de se relacionar com aqueles anjos, que pensavam ser homens, o que, por si só indica alguma forma de homossexualidade. O ponto é que Sodoma nunca é associado exclusivamente esse pecado e este nunca é descrito na Bíblia como a única ou mesmo principal causa do juízo de Deus. Além disso, em todos os casos que, no Antigo Testamento, Deus compara Israel com Sodoma e Gomorra, os pecados enfatizados no contexto nunca são a homossexualidade. Em Mateus 10:15, quando Jesus menciona Sodoma, a conotação também não é a homossexualidade. Sendo assim, não temos qualquer base para concluir que quando Cristo mencionou Sodoma e Gomorra em Lucas 17, o propósito de Sua comparação era enfatizar o pecado da homossexualidade.

Sobre o meu artigo, o Leandro Lima também respondeu:

“Em segundo lugar, alguns apelaram para os textos bíblicos que dizem que os últimos tempos começaram com a primeira vinda de Jesus, etc. Acontece que esse é um fato amplamente defendido por mim e pelo amilenismo. Porém, em algum momento precisa chegar “o fim do fim”. Precisa haver um “último dia” para os “últimos dias”. Portanto, esse argumento não representa nada substancial”.

De fato, é amplamente defendido por muitos Amilenistas, apesar de não ser, de maneira uniforme, defendido assim por todos. Por exemplo, em sua Teologia Sistemática, Louis Berkhof, uma das maiores influências do Amilenismo escreveu:

“O nome “escatologia” baseia-se nas passagens da Escritura que falam sobre “os últimos dias” (eschatai hemerai), Is 2.2; Mq 4.1, os “últimos tempos” (eschatos ton chronon), 1 Pe 1.20, e “a última hora” (eschate hora), 1 Jo 2.18. É verdade que estas expressões às vezes se referem a toda a dispensação do Novo Testamento, mas mesmo assim incorporam uma idéia escatológica.” (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 662)

Aqui Louis Berkhof diz “às vezes”. O que exatamente ele quer dizer com isso? E nas outras vezes, quando são estes “últimos dias”? Na mesma obra, ele escreve:

“Paulo também fala da grande apostasia em 2 Ts 2.3; 1 Tm 4.1; 2 Tm 3.1-5. Ele já via algo desse espírito de apostasia em seus próprios dias, mas se vê claramente que ele quer calcar em seus leitores que essa apostasia assumirá proporções muito maiores nos últimos dias (…) Paulo descreve claramente a grande apostasia como anterior à segunda vinda, 2 Ts 2.3, e lembra a Timóteo o fato de que tempos difíceis sobrevirão nos últimos dias, 1 Tm 4.1, 2; 2 Tm 3.1-5.”  (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 696)

Aqui Louis Berkhof cria um contraste entre “seus próprios dias” (o tempo em que Paulo vivia) e os “últimos dias” (um futuro distante em relação ao tempo em que ele vivia, mais próximo do Segundo Advento). Então, claramente, Louis Berkhof não entendia essa expressão como tendo um sentido uniforme no Novo Testamento. E na postagem inicial do Rev. Leandro Lima, ele próprio claramente usou o termo, não com o sentido que ele atribui agora ao Amilenismo, mas com o mesmo sentido desta última citação de Louis Berkhof. Suas palavras foram:

“Mas o que, como cristãos, podemos dizer disso tudo? Reclamar e exclamar horrorizados expressões como: “é o fim dos tempos”? Talvez seja mesmo, e nesse caso, não deveríamos estar horrorizados, mas com a certeza indirimível de que tudo está acontecendo como tinha que ser. Sim, a era cristã precisa terminar, pois se ela não terminar, Jesus não voltará”.

Foi justamente essa parte que eu comentei em minha postagem. Quando ele diz, “talvez seja mesmo”, ele está restringindo o “fim dos tempos” aos momentos da história que antecedem o Segundo Advento. Se ele tivesse usado no sentido de que começou com a primeira vinda de Cristo, então não haveria qualquer “talvez” sobre a possibilidade do “casamento gay” ter inaugurado essa fase do fim. Como Amilenistas como Louis Berkhof (e outros como o David J. Engelsma) usam estes termos, “últimos dias”, “últimos tempos”, “fim dos tempos”, citando textos como I Timóteo 4 e II Timóteo 3, para se referir aos últimos momentos da história que antecedem o Segundo Advento, não se pode dizer que o que eu defendi seja “um fato amplamente defendido por mim e pelo amilenismo”, como se a crítica não valesse. Mas se o Rev. Leandro Lima não crê exatamente como o Louis Berkhof (e outros Amilenistas) sobre o uso destes termos no Novo Testamento, seria interessante saber se ele crê que Paulo estava se referindo já ao primeiro século quando fala dos últimos dias em I Timóteo 4:1 e II Timóteo 3.

Há mais que merece ser comentado sobre as duas postagens do Rev. Leandro Lima no no Facebook, mas farei isso como parte de minha postagem em que irei demonstrar que a Bíblia ensina que a era cristã precisa crescer, se expandir e avançar e que se ela não avançar, Jesus não voltará.