Introdução

revelationREVELAÇÃO EM PARÁBOLAS: Uma Breve Introdução ao Apocalipse de S. João
Por Frank Brito

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INTRODUÇÃO

“A vós vos é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam”. (S. Lucas 8.10)

Apocalipse significa revelação. Apesar disso, é um dos livros mais difíceis de ser compreendido em toda a Bíblia. Mas, apesar de sua complexidade aparente, não podemos de qualquer maneira ignorar o seu valor. O Apóstolo João já começa o livro avisando: “Bem-aventurado aquele que lê e bem-aventurados os que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas”. (Ap 1.3) O próprio Jesus confirma no final: “Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro”. (Ap 22.7) A dificuldade em compreender o Apocalipse não deve nos levar a subestimar a sua importância. Como parte das Sagradas Escrituras, o livro de Apocalipse tem um valor e importância imensurável para todo cristão. O Apocalipse foi revelado por Deus e se Ele revelou é para ser entendido. “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre”. (Dt 29.29)

A dificuldade em compreender o Apocalipse é que sua mensagem é quase inteiramente transmitida em símbolos. Durante o seu ministério, Jesus também falava muito por meio de símbolos – o que chamamos de parábolas. Uma explicação muito comum sobre o uso de parábolas por Jesus era que Seu objetivo era facilitar o entendimento dos ouvintes. Segundo este entendimento as parábolas eram simplesmente uma maneira de fazer com que temas complexos fossem compreendidos mais facilmente por meio de comparações baseadas na vida comum, com coisas que os ouvintes já estavam acostumados a lidar no dia a dia. Apesar de sua aparente coerência, tal explicação contradiz o que o próprio Jesus ensinou sobre isso:

“E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem.” (Mateus 13.10-13)

Jesus não usava parábolas pra facilitar a compreensão de verdades espirituais, mas para dificultar. Um dos motivos pelo qual muitos acreditam que as parábolas eram um meio de facilitar o entendimento é que na Bíblia há, muitas vezes, a explicação das parábolas ao lado da própria parábola. Isso cria a impressão de que as parábolas eram fáceis de entender. Mas esse não era o caso da maioria dos que ouviam as parábolas do próprio Jesus. Na parábola da semente sendo lançada no caminho, por exemplo, “a semente é a palavra de Deus”. (Lucas 8.11) Mas isso só foi explicado para alguns dos discípulos de Jesus em particular. Para os ouvintes originais que não recebiam tais explicações, não seria tão obvio o significado da semente. Para compreender o que Jesus falava por meio de símbolos nas parábolas, era necessário que ele explicasse os símbolos em linguagem clara. Isso era feito somente para aqueles a quem era “dado conhecer os mistérios do reino dos céus” (Mateus 13.10).

Da mesma forma, se um texto bíblico é de difícil compreensão, o leitor deve buscar auxílio de outros textos que falam mais claramente de forma a revelar o significado do texto que é mais complexo. O leitor precisa pressupor a unidade e coerência da Bíblia. Sobre isso, a Confissão de Westminster[1] comenta:

“Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes [2]… A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.[3]

Infelizmente, em vez de buscar compreender os textos mais obscuros da Escritura a luz da própria Escritura, muitos cristãos optam por chegar a conclusões sobre os textos bíblicos com base na fertilidade da própria imaginação. Isso é especialmente comum na interpretação do Apocalipse. O Apocalipse é certamente uma revelação. Mas é uma revelação em parábolas. A compreensão dos símbolos do Apocalipse exige esforço, dedicação e reflexão sobre os seus símbolos – comparando Escritura com Escritura – para chegar a conclusões sólidas sobre o que cada símbolo significa. A maior parte dos símbolos do Apocalipse não é explicada pelo próprio livro, mas presume que o leitor já tenha um conhecimento extenso e profundo de ensinamentos e profecias de outros livros da Bíblia. Se os símbolos do Apocalipse não são claros, aqueles que querem compreendê-los devem buscar na própria Bíblia evidências sobre o que significam. O leitor deve buscar a origem dos símbolos do Apocalipse em outros livros da Bíblia que explicam o significado de tais símbolos de forma a determinar o que significam no Apocalipse.

O Apocalipse é um livro quase inteiramente sobre escatologia. A palavra escatologia tem origem na língua grega. O sufixo logia significa “estudo” e eschaton significa “ultimo”. Assim, “escatologia” significa “o estudo das últimas coisas”. A origem dos termos baseia-se em passagens da Escritura que se referem aos “últimos dias”, “últimos tempos” e “ultima hora” (cf. Dt 4.30, Is 2.2, 9.1, Dn 2.28, At 2.17, I Co 10.11, I Jn 2.18). Refere-se ao ramo da teologia que estuda o propósito último de Deus tanto para a humanidade quanto para o universo como um todo.

A escatologia cristã divide-se em dois ramos principais: a escatologia geral e a escatologia individual. Questões referentes à condição do indivíduo, entre a sua morte e ressurreição final, pertencem ao ramo da escatologia individual. São consideradas questões como a imortalidade da alma, a morte física e a condição intermediária de sua alma até a ressurreição final. Já a escatologia geral considera os eventos proféticos pelo qual a história do mundo e da raça humana chega a sua consumação final.

Quanto à escatologia individual, a Confissão de Westminster resume a perspectiva que é praticamente unanime entre os protestantes:

“Os corpos dos homens, depois da morte, convertem-se em pó e vêm a corrupção; mas as suas almas (que nem morrem nem dormem), tendo uma substância imortal, voltam imediatamente para Deus que as deu. As almas dos justos, sendo então aperfeiçoadas na santidade, são recebidas no mais alto dos céus aonde vêem a face de Deus em luz e glória, esperando a plena redenção dos seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas no inferno, onde ficarão, em tormentos e em trevas espessas, reservadas para o juízo do grande dia final. Além destes dois lugares destinados às almas separadas de seus respectivos corpos as Escrituras não reconhecem nenhum outro lugar… No último dia, os que estiverem vivos não morrerão, mas serão mudados; todos os mortos serão ressuscitados com os seus mesmos corpos e não outros, posto que com qualidades diferentes, e ficarão reunidos às suas almas para sempre… Os corpos dos injustos serão pelo poder de Cristo ressuscitados para a desonra, os corpos dos justos serão pelo seu Espírito ressuscitados para a honra e para serem semelhantes ao próprio corpo glorioso dele”.[4]

Quanto à escatologia geral, não existe qualquer coisa próximo a uma unanimidade. Perspectivas diferentes são defendidas até mesmo dentro de uma mesma denominação. As diversas linhas de interpretação costumam ser inseridas pelos teólogos em três correntes principais: pre-milenismo, amilenismo e pós-milenismo. Há questões em que as três correntes concordam: Haverá uma Segunda Vinda corporal e visível de Cristo, os mortos hão de ressuscitar, haverá um Juízo Final, os justos herdarão a vida eterna e os ímpios irão receberão a condenação eterna. As divergências são em relação aos eventos proféticos que devemos esperar que aconteçam até a Segunda Vinda e o Juízo Final. O nome de cada linha de interpretação é determinado pela maneira que abordam a visão dos mil anos de Apocalipse 20.

Pre-Milenismo

O pre-milenismo é a corrente escatológica mais difundida entre as igrejas brasileiras em nossos dias. Defende que a maioria das profecias do Apocalipse se cumprirá um pouco antes do fim do mundo e baseia-se numa leitura literal de Apocalipse 20. Costumam defender também que no decorrer da história até a Segunda Vinda, há um aumento progressivo de pecado, sofrimento, desastres naturais, guerras e perseguições aos fiéis, até que, por fim, a personificação de toda a iniquidade se manifestará na pessoa do Anticristo. Depois que ele tiver consumado o domínio da iniquidade no mundo, acontecerá a Segunda Vinda de Cristo em triunfo para estabelecer um reino de mil anos na terra. Os santos mortos ressuscitarão com os corpos glorificados, mas não os ímpios. O reino será inaugurado pela prisão de Satanás de maneira que ele não possa mais exercer qualquer influencia sobre a terra. Jerusalém será restaurada e servirá de sede para um Império mundial de Cristo. Será um período de grande justiça, paz e prosperidade em todo o mundo. Todavia, não será um mundo absolutamente perfeito. Ainda haverá pecadores. Mas será uma minoria e todo pecado será rapidamente reprimido por Cristo. Defendem também que depois dos mil anos, Satanás será solto por um breve tempo e tentará incitar pessoas do mundo inteiro a se rebelar contra Cristo e guerrear contra Jerusalém. É somente ai que acontecerá o Juízo Final pelo qual os fiéis entrarão no Novo Céu e Nova Terra enquanto os ímpios serão entregues a condenação eterna assim como o Diabo e os demais demônios.

Uma divergência que existe entre pre-milenistas contemporâneos é em relação ao arrebatamento conforme descrito em I Tessalonicenses 4. Historicamente, pre-milenistas sempre defenderam que no fim dos tempos os cristãos seriam perseguidos e martirizados pelo Anticristo até que Jesus voltasse para resgatá-los. A partir do século XIX e principalmente no século XX, isso mudou com o que veio a ser chamado de “pre-tribulacionismo”.  Os pre-tribulacionistas defendem que o reino do Anticristo terá uma duração de sete anos num período que chamam de “Grande Tribulação”. Diferente dos pre-milenistas históricos, os pre-tribulacionistas acreditam que imediatamente antes do Anticristo começar a reinar, todos os genuínos cristãos serão arrebatados por Deus da terra e transportados para o céu. O objetivo principal de Deus será impedir a Igreja de ser perseguida e martirizada pelo Anticristo. Além dos pre-tribulacionismo, há também o “meso-tribulacionismo”. São chamados assim porque diferente dos pre-tribulacionistas, acreditam que o arrebatamento dos cristãos acontecerá no meio da Grande Tribulação e não antes dela começar. Assim, acreditam que a Igreja será de fato perseguida e martirizada pelo Anticristo, mas que não terão que passar por isso até a Segunda Vinda porque serão retirados da terra três anos e meio antes. Já aqueles que defendem a perspectiva tradicional do pre-milenismo costumam ser chamados hoje de “pós-tribulacionistas”.

 Amilenismo

O amilenismo defende que a visão dos mil anos de Apocalipse 20 não deve ser entendida literalmente[5]. Defende que “mil” deve ser entendido como um número simbólico e que o Milênio se refere ao intervalo de tempo entre a Ascenção e Segunda Vinda de Cristo. A prisão de Satanás se refere ao fato de que ele não pode impedir a proclamação do Evangelho em todas as nações. Já a primeira ressurreição é entendida por alguns como sendo o novo nascimento e por outros como sendo a entrada da alma dos santos mortos no céu. Assim como os pre-milenistas, muitos amilenistas acreditam que há um aumento progressivo de pecado, sofrimento, desastres naturais, guerras e perseguições aos fiéis à medida que o fim da história se aproxima. Outros defendem que por toda história e até o fim do mundo, as forças do bem e do mal se mantem relativamente equilibradas. O Juízo Final acontecerá imediatamente após a Segunda Vinda com os fiéis sendo introduzidos ao Novo Céu e Nova Terra e os ímpios sendo entregue a condenação eterna. Até então, não há qualquer perspectiva de um reino de Cristo que faça prevalecer à justiça, paz ou prosperidade na terra. Cristo já reina, mas isso tem isso trás benefícios quase exclusivamente espirituais.

Pós-Milenismo

O propósito desta série é defender que a Bíblia ensina o pós-milenismo. A ascensão de Cristo inaugurou o seu Reino e desde então, ele vai progressivamente eliminando o pecado e o sofrimento da terra. Assim como os amilenistas, a primeira ressurreição é entendida por alguns como sendo o novo nascimento e por outros como sendo a entrada da alma dos santos mortos no céu. O Milênio é simbólico e acontece antes da Segunda Vinda. A prisão de Satanás significa que as nações são progressivamente convertidas ao Evangelho de maneira que chegará um tempo em que a maioria das pessoas será genuinamente cristã. À medida que há transformação espiritual entre os povos, há também desenvolvimento cultural e prosperidade material de forma que a terra é progressivamente restaurada da maldição do pecado. A libertação de Satanás após os mil anos é entendida como uma tentativa final dos ímpios que restarão de se rebelar contra o sucesso mundial do Cristianismo. É somente depois desse longo processo que acontecerá a Segunda Vinda Cristo que é quando os fiéis e os ímpios ressuscitarão para o Juízo Final. Os ímpios serão julgados a condenação eterna e os santos habitarão na Nova Criação consumada.

VALE A PENA ESTUDAR O APOCALIPSE?

Muitos acreditam que profecias bíblicas são simplesmente complicadas demais para que a gente entenda e que é melhor deixar para descobrir a interpretação correta quando chegarmos ao céu.  Mas, se Deus nos revelou profecias é porque ele quer que nós entendamos. Se ele não quisesse que nós entendêssemos, ele não teria nos revelado. Revelação pressupõe possibilidade de compreensão. Há muitas coisas que de fato não nos foram reveladas. Não sabemos e nem temos meios de saber quando Jesus voltará. Todavia, “as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre”. (Dt 29.29) Não há qualquer parte da Escritura que podemos simplesmente ignorar como irrelevante porque ela é a revelação de Deus para nós, para nossa compreensão. Devemos reconhecer que não compreendemos aquilo do qual ainda não chegamos a uma conclusão. Mas, a Escritura na sua totalidade nos foi dada para que entendêssemos aqui e agora, na terra e não para quando chegarmos ao céu.

Muitos acreditam também que o entendimento correto da escatologia bíblica não irá determinar ou impedir nossa salvação individual e por isso não é um assunto importante.

Primeiro, não é verdade que a compreensão da escatologia seja absolutamente insignificante para a salvação. Não é possível sermos salvos rejeitamos que haverá uma Segunda Vinda corporal e visível de Cristo, que os mortos hão de ressuscitar, que haverá um Juízo Final, que os justos herdarão a vida eterna. Além disso, podemos ver no catolicismo romano os efeitos nefastos de erros no âmbito da escatologia individual – o purgatório.

Segundo, é um erro acreditar que somente devemos nos preocupar com aquilo que é o mínimo necessário para garantir a nossa própria salvação pessoal. É possível uma pessoa se salvar sem nunca ler a Bíblia, comparecer a um culto, ser batizado ou tomar a Ceia do Senhor. Mas ai de nós se dissermos que não há importância em qualquer uma destas coisas! O objetivo da Bíblia não é tratar unicamente daquilo que é mínimo possível que precisa acontecer pra que sejamos salvos. Jesus ensinou que “viverá o homem… de toda palavra que sai da boca de Deus”. (Mateus 4.4) Isso significa que erramos quando restringimos nosso interesse somente ao que é minimamente necessário para que sejamos salvos ao mesmo tempo em que ignoramos todo o resto do que sua Palavra diz. Na carta aos Hebreus há uma reclamação contra os cristãos que só procuram entender como funciona a salvação pessoal e os princípios elementares da fé e nunca se desenvolvem em assuntos mais complexos:

“Sobre isso temos muito que dizer, mas de difícil interpretação, porquanto vos tornastes tardios em ouvir. Porque, devendo já ser mestres em razão do tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus, e vos haveis feito tais que precisais de leite, e não de alimento sólido. Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal… Pelo que deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento de arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, e o ensino sobre batismos e imposição de mãos, e sobre ressurreição de mortos e juízo eterno. E isso faremos, se Deus o permitir”. (Hb 5.11-14,6.1-3)

A compreensão que o homem tem de seu próprio destino e do destino do mundo determina diretamente a maneira que ele toma suas decisões e conduz sua vida. A importância da escatologia está diretamente ligada à maneira que nossos valores são formados e a maneira que vivemos nossas vidas com base nestes valores. Isso é verdade tanto no âmbito da escatologia individual quanto da escatologia geral. É o que Jesus ilustrou com clareza por Jesus na parábola do rico insensato:

“Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”. (Lucas 12.16-20)

O rico da parábola tinha como meta principal aproveitar o máximo a suas próprias riquezas por muitos anos: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te”. (v.18) Sua perspectiva sobre seu próprio futuro era o de viver aproveitando os deleites da riqueza. Suas ações no presente eram somente meios para este fim. A expectativa do juízo de Deus não fazia parte da equação pela qual ele media seus atos. Sua completa ignorância escatológica foi a causa de sua ruína. Ele não levou em consideração que o Juízo de Deus é o destino inevitável de todos os homens: “Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?” (v.20) Aqueles que ignoram a realidade do juízo de Deus vivem como se jamais serão julgados. Aqueles que acreditam que serão julgados vivem com base no tipo de julgamento que acreditam que terão. A parábola do rico insensato nos ensina é que as expectativas que o homem tem em relação ao seu destino determinam a forma com que ele age no presente em relação a tais expectativas. Sendo assim, a escatologica bíblica é absolutamente crucial para o desenvolvimento da vida prática.

Com base nisto, devemos entender que o propósito maior da escatologia bíblica não é matar a nossa curiosidade sobre o futuro. Não devemos ser movidos por qualquer especulação sobre como as coisas serão por mera curiosidade. O propósito maior da escatologia bíblica é fazer com que nossos valores e modo de vida estejam em conformidade com os propósitos de Deus. Deus é o soberano governador da história. Tudo o que acontece é sempre em conformidade com seus decretos. Seu objetivo em nos revelar determinados acontecimentos futuros não é matar nossa curiosidade. É fazer com que nossos próprios planos e objetivos estejam sempre subordinados aos propósitos d’Ele. Sem qualquer conhecimento do nosso destino como indivíduos ou do destino do mundo como um todo, não teríamos qualquer meio de averiguar se nossas próprias decisões estariam em conformidade com os planos de Deus. Por meio das profecias bíblicas, Deus nos informa de onde viemos e para onde vamos, de forma que podemos medir nossos valores.

Como exemplo disso, vamos refletir nas palavras do pre-milenista Hal Lindsey[6] em seu best-seller A Agonia do Planeta Terra:

“Jesus disse que ‘Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas se cumpram’. (Mateus 24.34) Que geração? Evidentemente, no contexto, a geração que veria os sinais – o principal sendo o renascimento de Israel. Uma geração na Bíblia é algo ao redor dos quarenta anos. Se isto é uma dedução correta, então cerca de quarenta anos depois de 1948, todas essas coisas já terão acontecido”.[7]

Quarenta anos depois de 1948 é 1988. Em 1980, início da década de 80, Hal Lindsey escreveu Década de 80: Contagem Regressiva para o Armagedom:

“Muitos ficarão chocados com o que acontecerá no futuro muito próximo. A década de 1980 poderá ser a última da história como a conhecemos”.[8]

Hal Lindsey não só defendia que o mundo estava prestes a acabar a qualquer momento, mas que provavelmente acabaria até o fim da década de 80. Evidentemente, já se passaram mais de 20 anos que a suposição de Hal Lindsey se mostrou falsa. Mas, a mesma perspectiva de que o fim do mundo está pra acontecer a qualquer momento ainda é a convicção de muitos cristãos. Se a compreensão que o homem tem de seu próprio destino e do destino do mundo determina diretamente a maneira que ele toma suas decisões e conduz sua própria vida, precisamos refletir de que forma a vida milhões de cristãos tem sido afetada por uma perspectiva escatológica assim.

As palavras do pastor John McArthur[9] refletem isso: “Os esforços do homem para melhorar o mundo… significam o mesmo que arrumar as cadeiras do Titanic para que todos tenham uma visão melhor do navio afundando”.[10] Sendo um pre-milenista, John McArthur acredita que o futuro do mundo necessariamente será marcado pelo aumento da iniquidade, do sofrimento, de desastres naturais, de guerras e de perseguições aos fiéis até o fim do mundo. Da mesma forma que o Titanic afundou e não havia quem pudesse impedi-lo de afundar, nossa civilização também está sendo completamente submergida por trevas de maneira inevitável. Consequentemente, todos nossos esforços de pra melhorar o mundo seriam em vão. John McArthur não vê motivos para “melhorar o mundo”, pois isso seria tentar evitar o inevitável. Não há dúvidas de que esta perspectiva tem um efeito profundo sobre a vida prática dos cristãos na maneira com que se relacionam com o mundo.

Os principais defensores do amilenismo tem defendido uma perspectiva parecida. O pastor amilenista Herman Hanko[11] escreveu: “O mundo é cheio de pecado e piorando uma situação desesperadora além da possibilidade de reparo”.[12] Mas se não podemos melhorar o mundo, só nos restam três alternativas lógicas: cooperar ativamente com a expansão da iniquidade, nos submeter passivamente a ela ou lutar na convicção de que nossa luta será em vão. A perspectiva de John McArthur é perfeitamente lógica e consistente com seus pressupostos escatológicos. O mundo vai sempre de mal a pior. Os odiadores de Deus serão mais e mais poderosos enquanto os justos cada vez menos influentes. Assim pensam a maioria dos cristãos hoje. E esse é um dos fatores determinantes que faz com que Igreja continue agindo como se fosse impotente para combater, com eficácia, contra a expansão da iniquidade. Ideias tem consequencias.

O propósito deste estudo não é comentar cada detalhe do Apocalipse, mas somente servir de introdução a sua mensagem central. O objetivo é que o leitor adquira uma perspectiva firme e consistente do propósito que levou o livro a ser escrito, do significado das visões e personagens principais e também que desenvolva a capacidade de aplicar seus ensinamentos aos dias atuais. Como o Apocalipse não foi revelado em linguagem clara e direta, mas trata-se de uma revelação em parábolas, haverá duas fontes principais sendo usadas para explicar o significado das visões. Para compreender o que os símbolos significam serão analisados textos da própria Bíblia – dentro ou fora do próprio Apocalipse. Quando lermos a respeito de homens sendo marcados na testa ou na mão, por exemplo, não usaremos nossa imaginação para concluir o que as marcas significam. Usaremos a própria Bíblia para chegar determinar o significado da visão. E para compreender o cumprimento das profecias do livro, serão analisados eventos históricos em que condizem com os eventos profetizados. Os eventos históricos não serão usados pra determinar o significado dos símbolos, pois isso será determinado pela própria Bíblia.  Os eventos históricos serão citados somente para demonstrar o cumprimento daquilo que fora profetizado dentro do contexto histórico que a Bíblia indica que se cumpriria.

As visões não serão necessariamente comentadas na mesma ordem que aparecem no Apocalipse. Há motivos importantes pra isso. Primeiro, a ordem em que as visões aparecem não reflete necessariamente uma ordem cronológica. Por exemplo, a visão das sete taças do capítulo 16 se refere aos mesmos eventos ou a eventos paralelos ao da visão das sete trombetas dos capítulos 8 aos 11. O fato de uma visão aparecer depois não significa que tenha referência a um evento que só aconteceria depois das visões que aparecem antes. Visões diferentes não se referem necessariamente a eventos ou personagens diferentes. Em diversos casos o mesmo evento ou personagem é descrito de diferentes maneiras e em visões distintas. Muitas vezes uma visão dá maiores detalhes sobre um evento ou um personagem do que a outra. Na maioria dos casos um evento ou personagem sendo profetizado não pode ser adequadamente compreendido sem levar em consideração a outra visão em que o mesmo evento ou personagem é descrito. A besta que sobe do mar de Apocalipse 13, por exemplo, tem sete cabeças e dez chifres. Mas no capítulo 13 não há qualquer pista do que as cabeças ou os chifres significam. Isso somente é explicado no capítulo 17. Consequentemente, é impossível compreender integralmente o capítulo 13 sem fazer referência ao que é capítulo 17. O Apocalipse foi escrito de maneira que exige do leitor uma reflexão profunda para chegar a conclusões consistentes. O leitor precisa refletir não somente na visão que está lendo no momento, mas também relação daquela visão com tudo o que foi dito antes e tudo que será ainda dito. Sendo assim, as visões não serão comentadas neste estudo na mesma ordem que aparecem no Apocalipse, mas na ordem em que o significado das visões possa ser mais bem esclarecido. Além disso, ao comentar uma visão, nem sempre todos os aspectos da visão serão comentados de imediato. Em muitos casos, é necessário comentar uma visão somente parcialmente de maneira introdutória e esperar que outros textos sejam mais bem compreendidos para que então aquela visão seja compreendida na íntegra.


[1] A Confissão de Fé de Westminster é um documento protestante produzido pela Assembléia de Westminster na Inglaterra entre 1643 e 1648. Trata-se de uma exposição das principais doutrinas bíblicas conforme professadas principalmente por igrejas presbiterianas e reformadas ao redor do mundo.

[2] Confissão de Westminster, Capítulo I, seção 7.

[3] Ibid., seção 9.

[4] Ibid., Capítulo 32, seção 1.

[5] “A” é um prefixo de negação. Amilenismo significa “sem milênio” ou “nenhum milênio” pra indicar a sua crença na inexistência de um milênio literal.

[6] Hal Lindsey é um evangelista e escritor americano. É um dos principais defensores contemporâneos do dispensacionalismo e do sionismo cristão.

[7] Hal Lindsey, A Agonia do Grande Planeta Terra.

[8] Ibid., Contagem Regressiva para o Armagedom.

[9] John McArthur é um teólogo e pastor americano.

[10] John MacArthur New Testament Commentary.

[11] Herman Hanko foi um teólogo e pastor holandês.

[12] Herman Hanko, The Illusory Hope of Postmillennialism, p. 159.

3 opiniões sobre “Introdução”

  1. Hewerton disse:

    Muito bom Frank! Estarei acompanhando todo o estudo expositivo do Apocalipse. É bom ver uma exposição clara e concisa com base no preterismo parcial que é realmente muito esclarecedor quanto aos significados das profecias bíblicas.

  2. Natan Cerqueira disse:

    Excepcional!

  3. lscavalcanteLuiza disse:

    Para mim, que estou começando meus estudos escatológicos, seu texto está sendo de profunda importância. Na verdade, eu não havia me interessado por isso antes justamente por pensar que não influenciaria na minha salvação, ou na minha caminhada com Cristo. Mas um amigo me advertiu de que isso influenciaria sim. E a partir disso, busquei conhecer mais. E estou muito feliz pelo Senhor ter despertado esse desejo no meu coração, não por mera curiosidade, e sim por desejar ter uma vida baseada na Sua Palavra.
    Agradeço por disponibilizar seu texto aqui. Que Deus o abençoe!

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