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O PAPA E O ANTICRISTO (Parte II)
Por Frank Brito

“E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia”. (Apocalipse 13.1)

Parte IParte IIParte IIIParte IV

Na parte I de nosso estudo identificamos o que é o anticristo. A palavra anticristo só aparece em dois livros da Bíblia – nas duas primeiras cartas de S. João. Segundo a definição de João, o anticristo é qualquer um que se apresente como mestre dizendo anunciar a verdadeira doutrina de Cristo, mas, que em seu lugar, anunciam mentiras demoníacas. João diz que devemos rejeitar tais mestres de tal maneira que não devemos nem sequer recebê-los em casa: “Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis”. (II João 1.10) Aqui João não estava se referindo a qualquer incrédulo, mas, como vemos no contexto, aos falsos mestres que ele identifica como sendo anticristo.

A BESTA QUE SUBIU DO MAR

Muitos erradamente associam o anticristo a besta que sobe do mar de Apocalipse. Mas, a besta que sobe do mar e o anticristo não podem ser os mesmos personagens porque a descrição que João dá do anticristo é diferente da descrição que ele dá da besta. A besta que sobe do mar é descrita como um poder político e, como já identificamos, o anticristo não é um poder político e sim falsas autoridades religiosas. Poderiamos identificar a besta como sendo um anticristo somente se tivermos em mente um sentido amplo da palavra anticristo, pois anticristo significa “inimigo de Cristo” e a besta é inimiga de Cristo. Mas, no sentido em que a própria Bíblia usa a palavra anticristo, não se refere a poderes políticos, mas somente a falsos mestres. No contexto de João eram falsos mestres que negavam a natureza humana de Cristo.

Será que a besta do Apocalipse tem alguma relação com o papa? Será que a besta é o papado? Há alguns dias eu vi alguns sites argumentando que o papa Bento 16 é a sexta cabeça da besta de Apocalipse 17 e que agora só resta a última, a oitava. Como devemos entender isso?

REVELAÇÃO EM PARÁBOLAS

A dificuldade em compreender o Apocalipse é que sua mensagem é quase inteiramente transmitida em símbolos. Durante o seu ministério, Jesus também falava muito por meio de símbolos – o que chamamos de parábolas. Uma explicação muito comum sobre o uso de parábolas por Jesus era que Seu objetivo era facilitar o entendimento dos ouvintes. Segundo este entendimento as parábolas eram simplesmente uma maneira de fazer com que temas complexos fossem compreendidos mais facilmente por meio de comparações baseadas na vida comum, com coisas que os ouvintes já estavam acostumados a lidar no dia a dia. Apesar de sua aparente coerência, tal explicação contradiz o que o próprio Jesus ensinou sobre isso:

“E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; pois ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem.” (Mateus 13.10-13)

Jesus não usava parábolas pra facilitar a compreensão de verdades espirituais, mas para dificultar. Um dos motivos pelo qual muitos acreditam que as parábolas eram um meio de facilitar o entendimento é que na Bíblia há, muitas vezes, a explicação das parábolas ao lado da própria parábola. Isso cria a impressão de que as parábolas eram fáceis de entender. Mas esse não era o caso da maioria dos que ouviam as parábolas do próprio Jesus. Na parábola da semente sendo lançada no caminho, por exemplo, “a semente é a palavra de Deus”. (Lucas 8.11) Mas isso só foi explicado para alguns dos discípulos de Jesus em particular. Para os ouvintes originais que não recebiam tais explicações, não seria tão obvio o significado da semente. Para compreender o que Jesus falava por meio de símbolos nas parábolas, era necessário que ele explicasse os símbolos em linguagem clara. Isso era feito somente para aqueles a quem era “dado conhecer os mistérios do reino dos céus” (Mateus 13.10).

Da mesma forma, se um texto bíblico é de difícil compreensão, o leitor deve buscar auxílio de outros textos que falam mais claramente de forma a revelar o significado do texto que é mais complexo. O leitor precisa pressupor a unidade e coerência da Bíblia. Sobre isso, a Confissão de Westminster comenta:

“Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes… A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.

Infelizmente, em vez de buscar compreender os textos mais obscuros da Escritura a luz da própria Escritura, muitos cristãos optam por chegar a conclusões sobre os textos bíblicos com base na fertilidade da própria imaginação. Isso é especialmente comum na interpretação do Apocalipse. O Apocalipse é certamente uma revelação. Mas é uma revelação em parábolas. A compreensão dos símbolos do Apocalipse exige esforço, dedicação e reflexão sobre os seus símbolos – comparando Escritura com Escritura – para chegar a conclusões sólidas sobre o que cada símbolo significa. A maior parte dos símbolos do Apocalipse não é explicada pelo próprio livro, mas presume que o leitor já tenha um conhecimento extenso e profundo de ensinamentos e profecias de outros livros da Bíblia. Se os símbolos do Apocalipse não são claros, aqueles que querem compreendê-los devem buscar na própria Bíblia evidências sobre o que significam. O leitor deve buscar a origem dos símbolos do Apocalipse em outros livros da Bíblia que explicam o significado de tais símbolos de forma a determinar o que significam no Apocalipse. Este é uma regra que devemos procurar seguir para procurar entender qualquer texto da Bíblia, não somente o Apocalipse.

AS SETE CABEÇAS

A besta é um dos principais personagens do Apocalipse. Identificá-la é essencial para compreender o tempo em que se cumpriram as demais profecias. Na realidade, não há uma única besta, mas duas. A primeira é a que sobe do mar e a segunda é a que sobe da terra. Todavia, a que sobe da terra não é mais chamada de besta no resto do livro e passa a ser chamada de “falso profeta” enquanto a que sobe do mar é chamada simplesmente de “a besta”. Portanto, quando nos referimos a besta, normalmente estamos falando especificamente da primeira besta, a que sobe do mar.

seven hillsO significado das sete cabeças da besta é explicado pelo o anjo no capítulo 17. Segundo o anjo “as sete cabeças são sete monte” (Apocalipse 17.9). Vamos nos imaginar no lugar de João por um momento. Se ele ouvisse falar nos “sete montes”, vivendo no primeiro século, em um tempo em que o Império Romano dominava, no que mais ele pensaria? A cidade de Roma era e ainda é mundialmente conhecida como a cidade dos sete colinas, pois é cercada por sete montes. O objetivo do anjo era claramente associar a besta a Roma. Os montes são: Capitolinus, Palatinus, Aventinus, Esquilinus, Coelius, Viminalis e Quirinalis.

Além disso, o anjo revela que “são também sete reis: cinco já caíram; um existe; e quando vier, deve permanecer pouco tempo”. (Ap 17.10). Isso deixa claro que a besta necessariamente precisa ser interpretada como significando um reino que contemporâneo a João. Isso deixa claro que a besta não pode significar algo contemporâneo ou futuro a nós do século XXI. A explicação do anjo deixa claro que a besta estava em plena atividade já no tempo de João. Para interpretar a besta como significando algo contemporâneo ou futuro a nós do século XXI é preciso ignorar o que foi explicado claramente pelo anjo. Como já demonstramos neste blog, a maioria das profecias do Apocalipse se cumpriram no primeiro século.

É evidente, pela associação que o anjo já havia feito a Roma, que os “reis” eram os imperadores romanos. As sete cabeças eram os sete primeiros imperadores romanos desde que o Império foi estabelecido: Júlio César, Augusto, Tibério, Calígula, Claudio, Nero e Galba. Isso significa que a besta era o Império Romano. Qualquer tentativa de desassociar a besta do Império Romano do tempo de João é uma tentativa de ignorar o que o anjo nos revelou sobre a identidade da besta. É uma tentaiva de ignorar o contexto do que foi dito, algo sempre danoso para uma interpretação bíblica saudável.

A SEXTA CABEÇA

O historiador romano Tácito, considerado um dos maiores historiadores da Antiguidade, descreveu a perseguição que, sob Nero, tantos de nossos irmãos foram obrigados a enfrentar:

“… Mas nem todo o socorro que uma pessoa poderia ter prestado, nem todas as recompensas que um príncipe poderia ter dado, nem todos os sacrifícios que puderam ser feitos aos deuses, permitiram que Nero se visse livre da infâmia da suspeita de ter ordenado o grande incêndio, o incêndio de Roma. De modo que, para acabar com os rumores, acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Cristo, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à extrema punição por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também em toda a cidade de Roma, onde conflui e se celebra quanto de atroz e vergonhoso houver por onde quer. Assim, começou-se por deter os que confessavam a sua fé; depois pelas indicações que estes deram, toda uma ingente multidão ficou convicta, não tanto do crime de incêndio, quanto de ódio ao gênero humano. A sua execução era acompanhada por escárnios, e assim uns, cobertos de peles de animais, eram rasgados pelos dentes dos cães; outros, cravados em cruzes eram queimados ao cair o dia como se fossem luminárias noturnas. Para este espetáculo, Nero cedera os seus próprios jardins e celebrou uns jogos no circo, misturado em vestimenta de auriga entre a plebe ou guiando ele próprio o seu carro. Daí que, ainda castigando os culpáveis e merecedores dos últimos suplícios, tinham-lhes lástima, pois acreditavam que o castigo não era por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade dele próprio”. (Públio Cornelio Tácito, Annais, XV.44)

O filme “Quo Vadis” trata desta perseguição promovida por Nero:

Isto explica o Apocalipse fala tanto em perseguições e em mártires.  Já na abertura do livro, o Apóstolo João diz: “Eu, João, irmão vosso e companheiro convosco na aflição, no reino, e na perseverança em Jesus, estava na ilha chamada Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”. (Ap 1.9) Os registros históricos mostram claramente que a primeira perseguição oficial por parte do Império Romano foi iniciada por Nero em Novembro de 64 e continuou até Junho de 68 quando ele se matou com uma espada no pescoço: “Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias; e deu-se-lhe autoridade para atuar por quarenta e dois meses. E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu. E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação”.(Ap 13.5-7) Foi durante as perseguições de Nero que Paulo e Pedro foram mortos. No mundo antigo Nero era conhecido pelo seu prazer por morte, tortura e perversidade sexual – homossexualidade, incesto, pedofilia e até zoofilia. Assassinou sua própria mãe, irmão, esposa e tia. No auge de sua insanidade Nero castrou um menino chamado Sporus, passou a tratá-lo como uma mulher e até celebrou uma cerimônia de casamento com ele, vestido de imperatriz. Permaneceram vivendo como casados até a morte.

João ainda revela algo muito importância para ajudar na identificação da besta: “Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis”. (Ap 13.18) Muita especulação sempre existiu e ainda existe em torno desse número. Mas se queremos ser fiéis ao texto bíblico, não podemos nos esquecer de que o Apocalipse foi escrito de forma a ser compreendido pelos contemporâneos de João, pelas “sete igrejas que estão na Ásia”(Ap 1.4).Quando João mandou seus destinatários calcular o número da besta, isso realmente era possível a eles. Não seria possível somente para a Igreja mais de 2000 anos depois, mas era algo que deveria ser feito pelos primeiro leitores do Apocalipse. Se a besta já estava em plena atividade no primeiro século, então também era possível calcular o número da besta já no primeiro século para que a besta fosse identificada.

É importante lembrar que em todos os idiomas antigos, as letras não eram usadas somente como símbolos fonéticos, mas tinham também um valor numérico. No português usamos os numerais romanos da mesma forma até hoje. A letra “V” por exemplo, se refere ao número 5. A vogal “I” se refere ao número 1. No grego e no hebraico, os valores das letras seguiam a ordem do alfabeto. As primeiras nove letras representavam os valores de 1-9. A décima até a décima-nona letra representavam as dezenas (20,30,40,50, etc.). O resto das letras representavam valores de centenas (100,200, 300, etc.). Devido a esse uso duplo do alfabeto, era comum formar enigmas numéricos contendo nomes. Os gregos chamavam de “isopsephia”. Os judeus chamavam de “gimatriya”. Os eruditos modernos chamam esse fenômeno de “criptograma”.  Portanto, os primeiros leitores do Apocalipse já estariam familiarizados com essa prática. Segue abaixo a equivalência numérica das letras:

Dec.

Heb.

Dec.

Heb.

Dec.

Heb.

1

א

7

ז

40

מ

2

ב

8

ח

50

נ

3

ג

9

ט

60

ס

4

ד

10

י

70

ע

5

ה

20

כ

80

פ

6

ו

30

ל

90

צ

Dec.

Heb.

 100

ק

200

ר

300

ש

400

ת

Em hebraico o nome Nero César era קסר נרונ – pronunciado como Neron Kaiser. Nero era quem estava no poder quando o Apocalipse foi escrito – a sexta cabeça da besta. E quando calculamos o número de seu nome, chegamos ao valor exato de seiscentos e sessenta e seis:

ר

ס

ק

נ

ו

ר

נ

Total

200

60

100

50

6

200

50

666

A SÉTIMA CABEÇA

A sétima cabeça da besta foi Galba, o imperador que sucedeu Nero. Segundo o anjo, ele permaneceria por pouco tempo no poder: “… o outro ainda não é vindo; e quando vier, deve permanecer pouco tempo”. (Ap 17.10) Isso se cumpriu com exatidão na pessoa de Galba. Ele foi Imperador por somente sete meses – do dia 8 de Junho de 68 até o dia 15 de Janeiro de 69. É um erro grosseiro de interpretação bíblica dizer que a sétima cabeça da besta é Bento 16. Não é outra coisa se não fruto de intérpretes irresponsáveis que estão mais preocupados com suas fantasias conspiracionistas do que com uma análise sensata do que o texto bíblico diz. O anjo revelou claramente que ele estava se referindo a uma sequência de reis contemporâneas a João.

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